Livro de Autor

 

 

Título: Santa Casa da Misericórdia de Fafe – 150 anos ao serviço da comunidade
Autor: Bastos, Daniel, 1980-
Prefácio: Trindade, Maria Beatriz Rocha, 1938
Posfácio: Coimbra, Artur Ferreira, 1956
Publicação: Fafe: Santa Casa da Misericórdia, D.L. 2012
Assunto: Santa Casa da Misericórdia (Fafe) -- História -- 1862-2012

 

 

 

Prefácio

À apresentação desta obra está necessariamente associado um olhar retrospetivo que situa o leitor do texto na segunda metade do século XIX, uma vez que a sua edição pretende assinalar a fundação da Santa Casa da Misericórdia de Fafe, em 23 de Março de 1862. Constitui, por isso, objeto primeiro da reflexão do autor, Daniel Bastos, a celebração dos cento e cinquenta anos que passaram sobre essa data. Uma realização que resulta de um projeto gizado a nível internacional, por Portugueses dentro e fora do seu país, cujo bom entendimento e colaboração permitiu concretizá-lo.
A descrição das etapas que se sucedem ao longo da vida da instituição e a fazem melhor conhecer, alinham concomitantemente as dificuldades encontradas e as estratégias concebidas para as ultrapassar, relevando tanto a contribuição das elites políticas como a que foi prestada por muitos elementos da sociedade civil. A toda a população de Fafe é devida uma empenhada colaboração.
Nem sempre se torna fácil compreender os acontecimentos que ocorrem, as metas que se conseguiram atingir, nem os valores que subjazem a todos eles, sem deixar de considerar o espaço onde tiveram lugar e cujo enlace com o tempo em que se situaram, cria a necessária moldura que os suporta e os enquadra. Tal justifica a contextualização temporal desta abordagem temática, numa perspetiva tripartida, que tem em consideração a dimensão nacional, a dimensão local e os atores sociais que entre elas se deslocam e dentro delas atuam.
Portugal, país europeu que conseguiu manter as suas fronteiras por um mais longo período de tempo, caracteriza-se pela constante mobilidade das suas gentes, convindo não esquecer que entre os milhares que dele saíram e que ainda hoje continuam a sair, o Brasil é uma referência muito importante no quadro da emigração portuguesa.
Durante o período que mediou entre 1860 e 1930, o volume do caudal da nossa emigração cifrou-se num total de 1 451 763, o que traduz para o país uma perda anual de cerca de 30 000 indivíduos. Não pode, no entanto, ser descurada a clandestinidade que sempre existiu e avolumou o fluxo de partidas, muito especialmente, no auge do expatriamento para o Brasil. Tratou-se de um êxodo que integrava a debandada comum que então assolava a Europa.
Se atendermos aos números registados pelos recenseamentos de 1864 e de 1878, no distrito de Braga, onde Fafe se situa, a densidade populacional era de 122 habitantes por Km2, tendo-se verificado terem partido legalmente em cada um dos dois anos referidos 320 575 e 330 111 habitantes. Como era de prever esta escala de emigração corresponde à densidade populacional existente, sendo o Minho o centro de uma emigração regional que se alastrava por locais que partilhavam as mesmas condições (Oliveira Martins, 1891).      
Embora ao longo dos tempos os destinos procurados se tenham alterado, fruto da articulação que balanceia interesses individuais e interesses nacionais de um e de outro país - origem e destino de quem entre eles circula - mantiveram-se permanentes os laços emocionais dos que foram compelidos a sair. E foram muitos os que partiram…
Corriam os anos de oitocentos e o Brasil tornara-se independente, embora continuando a ser a «nossa melhor colónia (…) depois que deixou de ser colónia nossa» (Alexandre Herculano, Opúsculos, Tomo IV. 1901).
Para lá sempre se tinham dirigido os Portugueses, antes e depois da independência (1822): para povoar e para colonizar; para trabalhar no seu extenso e diversificado território desde a orla do mar e mata atlântica até ao interior dos sertões; deles há notícia em plantações de açúcar e de algodão, nos extensos cafezais do Sul, nos seringais da Amazónia e em muitas outras paragens, onde desempenharam um sem número de atividades. Mas foi o pequeno comércio que conseguiu atrair a sua maioria e os espaços urbanos constituíram os locais em que prioritariamente vieram a fixar-se.
A par da generalização grosseira que conduziria à construção de enganosos estereótipos há que lembrar as múltiplas atividades profissionais desempenhadas pelos portugueses, todos os insucessos e sucessos que obtiveram, alguns destes últimos de muito grande dimensão, tendo mesmo chegado a alcançar projeção internacional. Lembrando o texto de Teófilo Carinhas no «Álbum da Colónia Portuguesa no Brasil», publicado no Rio de Janeiro em 1929, que continua a ser uma preciosa e indispensável fonte de informação, não houve atividade que não tivesse sido por eles desempenhada. Há pois que desconstruir a ideia existente de que os imigrantes portugueses apenas tinham exercido profissões não qualificadas nesse país, sendo na grande maioria analfabetos. E, para justificar, remete ainda a atenção do leitor para áreas que localmente acolheram as suas iniciativas: tanto o setor fabril como o próprio setor agrícola onde, por exemplo, a plantação e exportação de bananas e de laranjas tiveram grande expansão, tal como o da pecuária e o das pescas, que também lhe mereceram atenção.
As Agências Financeiras e os Bancos situados no Pará, no Rio de Janeiro e em S. Paulo, de que resta grata memória, referiam nos próprios cartazes publicitários notícia das operações efectuadas com países distantes situados na América do Norte e na Europa, dando conta dos depósitos realizados, do envio de remessas e da facilidade das transações.
Percorrer a espessura histórica que dá consistência a esta análise, permite melhor situar a dimensão regional e a dimensão local e assim descobrir a forma como evoluíram as configurações adquiridas por uma ligação sentimental, que projeta regularidades e expõe fraturas e da qual resulta um riquíssimo património. Atravessar a ponte atlântica, imagem construída simbolicamente, implica recordar as viagens num e noutro sentido, que realizaram um movimento de vaivém entre os dois países, explicado por todas as demonstrações do apego que à sua origem mantiveram.
Fafe, à época, uma pequena vila que se situava no interior das verdejantes terras de um Minho densamente povoado, terra de «brasileiros» ricos (Miguel Monteiro, 2004), constitui um caso paradigmático pela significativa presença dos que aí asseguraram um poderoso relacionamento transversal, a nível transcontinental, entre Portugal e o Brasil. Poderia dizer-se ser uma situação inspiradora para a realização de um aprofundado «estudo de caso» pois, por si só, incorpora na sua História uma riqueza de acontecimentos que aliam a visibilidade da vertente material ao conteúdo imaterial que lhe está associado.
A arquitetura, por exemplo, que permanece como indicador de faustos e riquezas, todo o investimento industrial que foi feito, as numerosas benfeitorias concedidas pelos filantropos que os arquivos registam e que têm vindo a ser dadas a público por investigadores ilustres, enleiam uma trama de realizações em prol dos outros, cujo alcance social ultrapassa o proveito próprio.
O Hospital Civil de S. José de Fafe, inaugurado de forma solene em 19 de Março de 1863, cuja existência agora também será oportuno celebrar e cujo percurso de vida é minuciosamente relatado por Daniel Bastos, constitui um bom exemplo da generosidade de fafenses que tendo ganho no Brasil a possibilidade de concretizar o desejo de bem-fazer, deixaram na sua terra e para a posteridade a prova do que lhes ia no coração.
A idealização do modelo institucional deste hospital tem como referência inspiradora o conjunto de princípios que nortearam a Beneficência do Rio de Janeiro, considerada «obra da graça de Deus e da ação de homens de boa- vontade (…) que a criaram, como Instituição maravilhosa dedicada ao bem, à caridade e à ciência, na qual a medicina e a assistência social atingiram nos últimos anos, os mais altos padrões de atividades científicas e técnicas» (Deyler Goulart Meira, 1979). A semelhança das linhas arquitetónicas entre os dois edifícios é reveladora da influência que a primeira construção exerceu sobre a segunda e de como se materializaram articuladamente as intenções de quem se encontrava fora da fronteira, com os que aqui residiam e foram, por assim dizer, o executivo do projeto. De entre o conjunto de fotografias que ilustram o texto poderão ser analisadas as gritantes semelhanças que revelam.
Tomando uma orientação cronológica para apresentação dos factos que se vão sucedendo e chegam aos nossos dias, o autor tem a preocupação de os contextualizar, o que faz compreender a forma como a sociedade local se estrutura e se hierarquiza. Todas as situações são envolvidas pela descrição das ideologias vigentes que, de certo modo, condicionam o que vai acontecendo. As formas de viver refletem, afinal, as respostas encontradas em cada espaço de tempo, para poderem responder aos desafios que se apresentam.
Da monarquia passa ao período republicano, atravessa a Ditadura Militar e o Estado Novo, assinala o 25 de Abril para chegar aos nossos dias. Percorrer este longo itinerário cheio de grandes realizações, que aparecem referidas nos arquivos que o autor meticulosamente consulta, nos jornais locais e da Região, em Almanaques e outras publicações que também lhe servem de referência, constitui um exercício de aprendizagem que traz um muito grande prazer. Vai-nos assim sendo dado conhecer, por seu intermédio, factos e figuras - tantas individualidades ilustres que fizeram parte das elites e ocupavam lugares de destaque em postos de gestão política e na administração de instituições locais, como elementos da própria sociedade civil que, da outra forma, contribuíram de igual modo para o bem comum.
São, por exemplo, referidos os sucessivos Cortejos de Oferendas que com uma periodicidade regular (1944, 1955, 1965) prestaram um valioso contributo, possibilitando a dinamização de programas e a consolidação de iniciativas. A vocação filantrópica dos residentes locais unia-se dessa forma à tradicional vocação filantrópica transatlântica para responder de forma pontual às dificuldades socioeconómicas que se apresentavam. As imagens inseridas no capítulo que os refere transportam-nos para um outro tempo e permitem reconstituir a vida de então, através dos elementos culturais selecionados para a realização do desfile público.
A metodologia seguida pelo autor do magnífico livro, que agora tenho o gosto de apresentar, presta particular atenção à pesquisa documental, o que o levou a consultar de forma sistemática e cuidadosa numerosos arquivos que lhe forneceram os elementos que tão bem soube trabalhar. Os dados obtidos em Relatórios de atividades, em Atas de reuniões, em notícias publicadas pelos periódicos da Região ou que foram mesmo publicados em Fafe, revelam a riqueza da informação que foi capaz de conseguir obter e merecem uma particular felicitação. Parabéns que com muito agrado estendo a todo o conjunto de imagens que inseriu, retiradas de coleções particulares ou que foram transcritas de fontes especializadas, que foi capaz de descobrir.
As longas e detalhadas listas de nomes que nos oferece permitem conhecer de forma exaustiva quem ocupou lugares de convidado, quem integrou o rol de beneméritos, ainda o das freguesias que através das suas dádivas contribuiram para o bem comum e os de quem concedeu donativos específicos. Da mesma forma, são referidos aqueles que integraram ao longo dos anos as Mesas Administrativas da Santa Casa da Misericórdia de Fafe (no tempo compreendido entre 1862 e 2012) ou o das Mulheres Republicanas da mesma cidade.
Merece particular referência a atividade desempenhada pelas Senhoras de Fafe, cujo labor se insere no espírito de cooperação existente e espelha a importância de uma participação igualitária.
Por fim, possibilita-nos visualizar os Beneméritos da Santa Casa da Misericórdia de Fafe, através de 49 quadros pintados e das fotografias que insere. Que acervo informativo tão rico é posto ao nosso dispor por intermédio da publicação dos resultados obtidos pela pesquisa deste historiador!
A Câmara Municipal, que ao longo dos anos tem apoiado a organização dentro das suas possibilidades, procurou conhecer e valorizar a História do município e a importância que presta aos originários do concelho. A criação do Museu da Emigração e das Comunidades (Julho de 2001), uma inovação ao nível do país, constitui prova irrefutável da linha orientadora seguida.    
Miguel Monteiro, a quem se deve a extraordinária obra de avivar e manter a memória de tudo o que as personalidades luso-brasileiras fizeram pela sua terra - uma terra que considerava verdadeiramente sua e que ele próprio tanto amou - referiu oralmente e deixou escrito, com o entusiasmo que lhe era tão peculiar e que todos tão bem conhecíamos e tanto continuamos a apreciar - a prodigiosa ação dos «brasileiros». Com a pesquisa realizada por Daniel Bastos, agora publicada no livro «Santa Casa Da Misericórdia De Fafe - 150 Anos Ao Serviço Da Comunidade»,‏ fomos presenteados com mais um valioso contributo para o conhecimento da instituição, da cidade e do próprio fenómeno migratório português. Individualmente retratados, os ilustres fafenses que nos contemplam na galeria da irmandade e da edilidade que lhes é dedicada, lembra-nos tudo o que Fafe lhes deve. Tê-los feito permanecer na Misericórdia e no Município, em local tão distinto, faz jus à obra que deixaram.

Maria Beatriz Rocha-Trindade
Professora Catedrática/ Universidade Aberta (Portugal)
Fundadora e Investigadora do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI)

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