Livro de Co-Autoria

 

 

Título: A PRIMEIRA REPÚBLICA EM FAFE - Elementos para a sua história
Autores:
Coimbra, Artur Ferreira, 1956
Bastos, Daniel, 1980
Leite, Artur Magalhães
Prefácio: Samara, Maria Alice
Posfácio: Coimbra, Artur Ferreira, 1956
Publicação: Fafe: NALF,
Assunto: Fafe -- História -- Séc. 20

 

 

 

Prefácio

Olhar a República para além de Lisboa

Maria Alice Samara

Nos últimos anos, tendo como catalisador as comemorações do centenário da implantação da República em Portugal, os estudos sobre este período registaram um aumento muito significativo e de grande importância para este campo disciplinar, multiplicando-se, também, as iniciativas que visavam a divulgação e o debate sobre o republicanismo e a República. Foi, aliás, nesta conjuntura que, em boa hora, o Núcleo de Artes e Letras de Fafe promoveu um Curso Livre de História Local, subordinado ao tema “O concelho de Fafe durante a Primeira República (1910-1926)”.
Para compor um quadro mais completo, complexo e rico é preciso olhar a República e o republicanismo para além de Lisboa. A capital era, sem dúvida, o principal palco político do Portugal de inícios do século XX. Pese embora esta centralidade, tal não implica que se deva obliterar a dinâmica do resto do país, nem esquecer que o republicanismo e o revolucionarismo foram uma rede mais vasta de contactos e encontros que não se resumia a Lisboa. Existiam outros centros políticos de grande importância para o movimento republicano, como, por exemplo, o Porto, Coimbra, ou ainda Setúbal, muito embora a implantação desta rede variasse geográfica, social e sociologicamente.
O movimento republicano, antes e depois da tomada do poder, deve ser visto como um movimento ou uma galáxia de organizações, cuja origem se pode situar em meados do século XIX e cuja influência se prolongou no transcurso do século XX antes e para além da conjuntura em que deteve o poder, entendido como o domínio da cúpula do Estado. Neste sentido, há uma ideia de República que sobrevive ao 28 de maio de 1926, à Ditadura Militar e ao Estado Novo.
A galáxia republicana deve ser vista como uma formação social, política e cultural, de tamanho variável e não constante, tecida de relações institucionais e interpessoais 8e mesmo familiares). Esta rede de pessoas e instituições que por sua vez se ligavam a outras sensibilidades políticas, ultrapassavam o limite e as fronteiras do partido. Para além do Partido Republicano Português, o movimento republicano era composto por uma teia de ligações que entroncavam no mundo associativo e em outras organizações políticas, culturais e mesmo femininas e feministas. Por isso, é fundamental estudar o papel das mulheres e o mundo do associativismo, recuperando quer uma parte da história do período que durante muito tempo foi negligenciada – no caso das republicanas - quer as diferentes dinâmicas sociais e culturais do associativismo, fundamentais para se perceber o período em análise. Sempre que tratamos deste período e do republicanismo é, igualmente, fundamental estudar os jornais, os jornalistas e o jornalismo. Uma das principais formas de publicitação do ideal republicano foi através do mundo da escrita. E este era vasto, incluindo o jornalismo, pedra de toque do combate republicano. Os republicanos ampliaram o seu peso relativo na cidade política tendo as ferramentas críticas para expressarem as suas ideias, para terem uma voz e uma intervenção.
Esta galáxia tinha um denominador comum, que não se esgotava a nível político, e que evoluiu, claro está, desde o século XIX até à tomada de poder e mesmo depois do 5 de Outubro de 1910. Perceber e contextualizar esse projeto político, este ideário, esta doutrina, as medidas do Governo Provisório, a Constituição de 1911 e a arquitetura do regime são passos essenciais para a caracterização do regime e, do nível macro ou nacional para os regionais e locais, complexificar a leitura e análise da realidade.
A mudança de escala de análise para o nível local, também nos permite surpreender variações significativas dentro do campo republicano, diferentes perspectivas e combates. Em determinados locais o republicanismo está próximo do socialismo, noutros é fulcral o combate contra os “senhores” da terra, as “velhas” elites. Depois do 5 de Outubro, podemos surpreender o predomínio dos democráticos ou a influência de outros chefes políticos.  O que faz, obviamente, do republicanismo um movimento a várias vozes, em certo sentido, uma polifonia.
O livro agora publicado é de extrema importância já que analisa o concelho de Fafe, articulando sempre a escala local com o nível nacional.Dá a conhecer a História do período em análise, nas suas principais conjunturas e problemas, bem como as dinâmicas próprias do concelho, a par da publicação de documentos e imagens surpreendentes e de grande importância, o que permite ao leitor uma “viagem” ao passado, à história, à memória e ao património, até ao Portugal de início do século XX, a uma época fundamental para a compreensão da contemporaneidade.  “Viagem” essa que permite, ainda, perceber como se alterou a própria ideia de espaço, nomeadamente através da simbólica e importante alteração da toponímia.
Através dos diferentes trabalhos agora publicados, podemos desmontar a visão de que a República foi proclamada por telégrafo, surpreendendo as “raízes republicanas no concelho de Fafe”. Podemos ainda conhecer os “republicanos fafenses”, histórias de vida, que merecem ser resgatadas do esquecimento.Ficamos a conhecer “Fafe em 1910”, possibilitando uma visão económica, social e cultural, sem a qual não era possível uma compreensão mais profunda. O “governo local (1910-1926) permite-nos acompanhar os processos eleitorais, o predomínio de uma linha política republicana e o contexto sidonista. De igual modo, os diferentes trabalhos acompanham as diferentes fases políticas da Primeira República, nomeadamente a conjuntura das incursões monárquicas, que ensombrou os primeiros anos do novo regime e a da I Guerra Mundial e sidonismo. A crise da guerra, por muitos considerada como uma das causas da queda do regime, é um temas de análise e que ganha agora, perto dos cem anos do início da I Guerra Mundial, uma renovada importância no panorama historiográfico quer nacional, quer internacional.
Para criar os tão desejados cidadãos, homens e mulheres conscientes, era absolutamente necessário instrui-los. Para que esta possibilidade de ser cidadão de corpo inteiro e de poder melhor a vida tivesse efetividade, a educação e a instrução eram condição sine qua non, uma parte essencial numa luta mais vasta pela modernidade. Num trabalho sobre o período republicano, não poderia, pois faltar, um capítulo dedicado ao “Ensino e às Escolas na Primeira República”.
Este livro é, assim, um importante contributo não apenas para a história do concelho de Fafe, mas para a história do final do século XIX e inícios do século XX, para a história da Primeira República e do Republicanismo. E, recuperando uma ideia/expressão do republicanismo, esta obra contribui em muito para a ilustração de todos os que se interessam ou trabalham sobre este período da História de Portugal.

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