Livro de Autor

 

 

Título: Fafe – Estudos de História Contemporânea
Autor: Bastos, Daniel, 1980
Prefácio: Delgado, Iva, 1940
Posfácio: Coimbra, Artur Ferreira, 1956
Publicação: Fafe: Labirinto, 2010
Assunto: Fafe -- História -- Séc. 20

 

 

Prefácio

A obra que Daniel Bastos nos apresenta constitui uma visão da história contemporânea de Fafe numa perspectiva de interacção com acontecimentos nacionais e internacionais e com linhas de rumo ideológicas derivadas da mudança de regimes, do monárquico para o republicano, deste para a ditadura do Estado Novo, e finalmente para o regime democrático iniciado em 25 de Abril de 1974 com a Revolução dos Cravos.
A investigação levada a cabo incide sobre figuras locais, um autêntico levantamento de personalidades intervenientes, de líderes naturais, de protagonistas da coisa pública, que normalmente entram na categoria de elite, uns pelo seu status de riqueza, os “brasileiros”, outros pela sua actividade pública, outros ainda pelo exercício de benemerência ou de reconhecida actividade intelectual ou profissional; mas também há heróis esquecidos e o chamado povo anónimo, a base popular em que assenta a matriz social com as suas componentes estruturais  e doutrinais.
A partir de dados publicados e inéditos, oriundos de fontes a mais diversa, que vai dos arquivos públicos e privados à imprensa regional, a documentação e memorabilia particular, correspondência privada, colecções de fotografias, o Autor constrói um edifício de informação expressivo que vai crescendo de forma a estabelecer uma hierarquia social natural – uma espécie de medianeiros - base para o estudo histórico que define a dialéctica entre poder central e poder local. Como se a história fosse feita de baixo para cima, sendo figuras históricas como um D. Carlos I, além de reabilitadas da má imagem com que a História as marcou, pretexto para descrever o ambiente regional e social que rodeou o monarca por motivo de duas estadias nas termas de águas curativas de diabetes.  É interessante para o leitor poder ver a fotografia da casa de um cidadão, fafense ilustre, que recebeu D. Carlos em Fafe; faz parte da curiosidade histórica conhecer locais por onde passaram os famosos. No entanto, alerta o Autor, o ambiente político já não era o mesmo da primeira para a segunda visita, o republicanismo começava a alastrar. Estamos a na primeira década do século XX.
De realçar a importância que o Autor dá a visitas oficiais de políticos de cariz nacional a Fafe, já pela azáfama que provoca a nível de organização protocolar e cerimonial, tendo sempre em vista o quem é quem no mundo dos influentes, dos que recebem na sua terra o que nós hoje chamaríamos “vipes”, já pela sempre desejada adesão popular. Toda a gente sabe o quanto favorece na província os detentores de cargos públicos ladearem-se de gente importante vinda de fora e de povo local. É um hábito que ainda hoje perdura e que tem efeitos de consumo interno nada negligenciáveis.
Que sob a profusão informativa se consiga delinear o significado dos acontecimentos, como se houvesse um subtexto explicativo é a originalidade do sistema que o Autor montou. Efectivamente nota-se que sob a meticulosa pesquisa quase poderíamos dizer de cariz antropológico no que respeita à busca de indícios formativos de uma dada sociedade que tem características sui generis, existe a preocupação  de demarcar não só os actores no processo histórico mas o legado que estes deixaram como marca de exemplo para os futuros que se constroem. Este trabalho de construção da memória histórica, espécie de mapa biográfico que pretende arrancar do esquecimento aqueles que contribuíram de forma activa para o “processo político e conjuntura socioeconómica”, faz-se independentemente do campo ideológico em que se situem. Este cair de muro ideológico soterrado pela profusão dos dados e circunstâncias poderia causar alguma perplexidade a quem se dedica ao estudo das mentalidades, não fora a sua utilidade prática na compreensão do quotidiano português. Um exemplo típico, a inserção de um pequeno anúncio num jornal local de alguém que declara que jamais pertenceu à PIDE/DGS, a polícia política do Estado Novo, isto no pós-25 de Abril.
Notoriamente em relação aos processos electivos do Estado Novo e à movimentação dos campos situacionista e oposicionista, o Autor dedica um tratamento de aprofundamento sociológico, a partir das fontes locais, com dados biográficos eficazes e explicativos das tendências das diversas famílias políticas, das dissidências, do fulgor patriótico de uns, da militância política de outros, desenhando-se o contexto histórico que de algum modo reflecte a ânsia democrática local paginável com a do restante país.
Da obra e dos feitos dos diferentes regimes, do republicano ao democrático passando pelo Estado Novo, é na perspectiva local que são descritos, como não podia deixar de ser, pois é esse o objectivo deste laborioso estudo. Assim não se estranhe que uma figura ligada à  terra mas de repercussão nacional como é o caso de Baltazar Rebelo de Sousa, ministro de Salazar, tenha uma maior cobertura em relação a figuras como, por exemplo, Américo Tomás, no seu papel rasteiro de Presidente da República.
Seria talvez exagerado dizer que o manto do localismo por vezes oculta as linhas mais propriamente históricas dos acontecimentos, exagero porque a história está sempre presente e é vivida pelas gentes locais, como no caso da Primeira Guerra Mundial e dos soldados originários de Fafe que morreram ou ficaram estropiados vivendo na miséria. Com que emoção lemos o nome dessas pessoas que organizaram a ajuda aos desgraçados conterrâneos vítimas da guerra. No domínio da política de oposição, com que admiração seguimos a intervenção cívica de Miquelina Sumavielle, única mulher da região a dar a cara na corajosa luta contra Salazar nas eleições presidenciais de 1958. E tantos outros exemplos poderíamos dar de portugueses de vivo espírito cívico retirados da tirania do esquecimento graças ao empenho esforçado de Daniel Bastos pela história de Fafe.

                                                                       Lisboa, 18 de Novembro 2010

                                                                                  Iva Delgado

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